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terça-feira, agosto 02, 2005 |
11:17 AM
das lendas antes de vir para os Estados Unidos, eu costumava ouvir muitas coisas contadas por brasileiros a respeito do povo daqui. coisas negativas, obviamente, e sem o menor embasamento: nenhuma das pessoas haviam estado aqui ou sequer conheciam um americanozinho que fosse. era sempre "eu ouvi falar", "eu vi na televisao", "a vizinha da amiga da minha prima falou que...". dois dos pontos mais discutidos por esses sabios de plantao eram: 1. a frieza dos americanos; 2. o preconceito dos americanos contra latinos, principalmente brasileiros. isso sem contar a celebre, sugestionavel frase "americano e' tudo psicopata", que povoou meus ouvidos durante varias semanas e que, depois de me fazer dar boas risadas, acabou me deixando com a pulga atras da orelha. 1. os americanos nao sao "frios". sao antes pessoas muito simpaticas, abertas, e estao sempre dispostas a ajudar caso voce precise. a tal frieza e' so' uma questao de ponto de vista; aos olhos [e sentidos] sul-americanos, acostumados a abracos, beijos e efusivos cumprimentos, a "distancia" que as pessoas daqui mantem umas das outras pode parecer um pouco antipatica. confesso que isso 'as vezes me incomoda um pouquinho, acostumada que sou aos tradicionais beijinhos no rosto, a longos abracos nos meus amigos e a falar com as pessoas tocando nelas [sem grude, obviamente, e apenas quando percebo alguma abertura]. no entanto, admiro muito a forma como eles preservam o espaco do outro. fico muito incomodada com a mania que se cultiva no Brasil de se sair entrando na casas alheias, aparecer sem ligar, ou ligar pra conversar abobrinhas justamente na hora em que voce esta' atolado de coisas, achando que voce nao tem mais nada pra fazer na vida e sem ao menos perguntar se voce esta' disponivel. 2. ta' certo que minha vida social aqui e' praticamente nula. ta' certo que nao tenho um tipo "latino", mas o cabelo muito escuro e a tez mais moreninha denunciam que eu nao nasci aqui. as pessoas sempre me olham bastante nos lugares onde vou, principalmente quando uso saioes ou o vestido vermelho estampadinho [a americana media e' super sem sal e sem criatividade para se vestir], mas nunca e' um olhar de desaprovacao ou de desprezo pela minha estrangeirice. nem quando abro a boca e vem aquele sotaque brabo. e' claro que deve existir preconceito em algum lugar, pois onde ha' seres humanos ha' todas essas babaquices, mas por enquanto, ainda nao vi. [alias, para uma nacao que esta' se tornando uma filial do Mexico, alimentar preconceito contra latinos e', no minimo, um paradoxo: e' impressionante o numero de imigrantes mexicanos, mesmo aqui na "roca", e como principalmente as comidas deles ja' foram incorporadas ao cardapio americano; sem contar que o espanhol se torna, cada vez mais, uma especie de segunda lingua por aqui.] se ja' sofri preconceito alguma vez, foi exatamente no meu pais, nacao de cultura fortemente hierarquizada, onde as pessoas nao hesitam em mandar "para os seus lugares" todos aqueles que nao demonstram algum traco de "ascendencia social". na Terra Brasilis tudo e' motivo para se sentir acima do seu semelhante: comprar um carro, ter um salario melhorzinho, morar na Zona Sul, fazer faculdade. meu pai ja' foi discriminado por entrar em restaurante com roupa de operario - ele era eletricista da Light e usava aquele macacao cinza, quem e' velho se lembra. quando o garcom o abordou com recomendacoes pouco amistosas, ele colocou o maco de notas graudas sobre a mesa, disse umas verdades, depois as recolheu e se retirou. quando meu noivo ia me visitar no Rio, eu entrava em lugares bacanas de havaianas e so' faltavam colocar o tapete vermelho pra eu passar - e' claro que o tratamento seria "levemente" diferente se eu aparecesse sem o gringo loiro de olhos azuis do lado. ja' sofri discriminacao por morar na Baixada Fluminense - sim, aquele lugar onde rolou a chacina, no inicio desse ano. desde olhares tortos mal-disfarcados, passando por carinhas de nojo ate' discriminacao verbal mesmo. outros nao acreditavam que uma pessoa formada em moda, estudante de Historia da Arte, com ingles e que nao gostava de pagode nem de funk pudesse morar logo em Duque de Caxias, "puxa, eu pensei que voce morasse na Tijuca..." sempre falei "Duque de Caxias" em alto e bom som, que e' pras pessoas aprenderem que nao e' o lugar onde voce vive que vai te fazer uma pessoa melhor. quer me isolar so' porque eu pego o trem pra ir pra casa, problema seu. algumas das pessoas mais geniais que eu conheco andam de trem e compram cinco pacocas por um real. e, pasmem, ate' mesmo la' as pessoas discriminam, pois voce e' melhor visto se morar num bairro mais nobre. e entra no shopping da Unigranrio de chinelinho e roupinha tosca pra voce ver so' uma coisa. nao quero, com esses comentarios, insinuar que os EUA e' o lugar sensacional do planeta, nao, porque nao e'. o problema de alienacao aqui e' cronico. as pessoas levam uma vida vazia e acham que isso e' normal, se preocupam demais com coisas sem importancia, e no geral nao estao nem ai' se tem crianca chorando de fome no nordeste brasileiro ou na Africa [talvez nem saibam a diferenca, tambem]. mas isso e' assunto para um outro post... |
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2005© Patricia Ariel. Love is the Law. |