quarta-feira, julho 27, 2005 | 9:42 AM

o terceiro membro

familia que e' familia so' esta' completa com um bicho de estimacao, portanto, la' fomos nos a um dos abrigos locais escolher o terceiro membro: uma gatinha. nunca vi a bicharada ser tratada com um grau de humanidade tao grande, e ate' senti uma certa tristeza ao constatar que, em muitos lugares, nem seres humanos sao cuidados daquele jeito. o abrigo funciona numa grande casa, muito limpa, e os gatos, ao inves de ficarem em jaulinhas, ficam soltos pelo lugar com liberdade de circularem e fazerem bagunca onde bem entenderem. eles tem quartos com caminhas e brinquedos, sao muito bem alimentados e o clima de felicidade e' geral. fiquei absolutamente encantada, a alma sorrindo escancarada porque, depois de 3 meses sem tocar um gato [deixei tres no Brasil] pude finalmente abracar varios, sentir aquela energia boa que so' os bichos tem. eu queria ser escolhida, e nao escolher... o que de fato, aconteceu rapido, pois um deles, o Sheldon, todo preto e muito brincalhao, foi logo pulando no meu colo e agarrando no meu pescoco. mas como a ideia era escolhermos uma femea [o marido prefere, fazer o que], acabei deixando meu coracao meio de lado e escolhemos uma gatinha de dois meses e meio muito linda, mais quieta, porem, mas com um pelo de umas gradacoes de cinza que eu nunca vi igual. nao pudemos trazer ainda, pois o abrigo e' rigoroso, eles fazem mil perguntas e pedem referencias, querem saber se podem vir visitar qualquer dia para saber se o bicho esta' indo bem, coisas do tipo. so' falta juiz e cartorio. quase da' a impressao de que eles nao estao a fim de se desfazer dos gatos... o jeito e' esperar. e segurar a ansiedade, que e' muita.


terça-feira, julho 26, 2005 | 11:44 PM

just married

entao eu me casei. tudo muito rapido e simples. usei blusa de alcinha e calca preta, ele, calca jeans e tenis. as testemunhas foram duas pessoas da courthouse mesmo, que provavelmente nunca mais vou ver na vida. o juiz, parece, estava no meio de um julgamento e aproveitou o intervalo para realizar o enlace. nao tinha papelzinho nenhum pra ler e eu nao consegui repetir as palavras que o juiz proferiu porque nao entendi o ingles - eu sabia que isso ia acontecer, por isso o vexame nem tomou maiores proporcoes. mas fiquei emocionada, porque texto de casamento e' lindo e na hora passam pela sua cabeca todas aquelas historias de princesas e principes que viveram felizes para sempre. depois eles foram comemorar enchendo a cara de Newcastle/Guinness e comendo buffalo wings.

na verdade, ja' estavamos casados desde que cheguei aqui. nada mudou depois da papelada, salvo que ficamos menos tensos, como se descansassemos de uma vez por todas da obrigacao de fazer dar certo em tempo recorde, depois dos quatro anos complicados e burocraticos que se antecederam. relacionamento 'a distancia da' certo sim, mas se nao tiverem coracao 'a prova de pancadas [e de muitas, muitas chateacoes consulares], nao tentem isso em casa, criancas.

estou feliz, mas ainda nao caiu a ficha. e' estranho assinar um nome diferente. ja' varias vezes tive que parar ao preencher formularios, olhando com cara de idiota para o campo onde meu nome deve entrar, ate' me lembrar que nao tenho mais o Silva e que no lugar dele entrou um sobrenome anglo saxao. ainda penso se algum dia vou me acostumar. por enquanto, tenho a sensacao de que minha identidade anda se despedacando. mas entre um caquinho aqui, outro ali, uns colados outra vez em posicao diferente e outros descartados porque nao servem mais, espero um dia poder olhar no espelho e enxergar uma pessoa melhor.


terça-feira, julho 19, 2005 | 11:56 AM

morram de inveja



ja' estreou aqui. e eu ja' vi, lalalalala-laaaa.....

podem deixar, que vou me abster de comentarios. sei que ha' leitores deste blog que estao esperando ansiosamente e nao quero estragar a festa.

so' posso dizer que o Johnny Depp esta' impagavel como Willy Wonka [alguma novidade?]. comments later.


9:39 AM

mais America

semana passada estivemos em Denver, no Colorado. nada de extraordinario, para quem veio de cidade grande. mas foi bom experimentar novos ares, e a cidade nao e' tao ameacadora assim; e' muito agradavel, na verdade, com seus bares, restaurantes e lojas que me lembraram muito o centro do Rio, e as pessoas mais simpaticas que ja' vi nesse mundo. o museu de arte e' muito bom - pela primeira vez vi pecas renascentistas e medievais em "carne e osso" e, pasmem, e' permitido tirar fotos! -, Georgia O'Keeffe e Roy Liechstestein "em casa", e ate' uns picassos e braques [meio ruinzinhos] e uns monets [otimos]. tambem fiquei fascinada pela sessao de arte indigena, que me trouxe, sem duvida, muita inspiracao. e, depois de um exaustivo dia de caminhada em busca do zoologico/jardim botanico [acabamos encontrando so' o primeiro], deparamos, como uma dadiva do Olimpo, com sushi barato e pub em plena happy hour dando uma pint de cerveja de graca a cada pint paga. claro que eu tive que esquecer o alprazolam e aproveitar.


9:21 AM

e os urubus continuam passeando a tarde inteira entre os girassois

hiatos preenchidos com palavras alheias e nao-palavras, eu sei.

eu sei que mereco uma medalha, embora minhas vitorias sejam secretas, ninguem mais as ve. nao e' facil conviver com crises de ansiedade diarias e sintomas fisicos quase onipresentes. vou indo devagar, lidando com medos e prisoes. cortar o cortao umbilical e' dolorido e demanda mais tempo do que eu jamais imaginei.

amanha e' dia do meu casamento. acho que vai fazer sol. nao vai ter vestido, nem bolo, nem alianca - meu noivo acha bobabgem gastar dinheiro com algo tao futil. esta e' sua segunda tentativa, os anos dificeis da primeira o fizeram mais cinico do que eu. acho que ele esta' certo, embora eu tenha ficado triste pela ausencia do simbolo. talvez eu use calca jeans e havaianas. ou talvez preto. talvez iremos comer sushi, ou buffalo wings regados a uma boa Guiness/Newcastle.

acho que nada disso tem importancia.


terça-feira, julho 12, 2005 | 1:12 PM

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz

Se ela mora no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que ela é louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva pra sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Aí, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se o arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida...


10:07 AM

...while Wilde is on mine.


segunda-feira, julho 11, 2005 | 10:41 AM

sobre amor e magoa

as coisas vao melhorando por aqui, obrigado. a quem deixou recadinho torcendo pela minha melhora: voces sao otimos e, acreditem, eu recebo cada pedacinho do amor de voces. mesmo. na forma das coisas mais incriveis. porque amor e' energia, materia, e se plasma em mil coisas diferentes e sempre boas.

guardar magoas e ressentimentos nunca foi bom pra' ninguem. alem de ficar machucando o coracao o tempo todo, eles ainda viram doenca. sempre e' bom falar as coisas que vao na alma, mesmo as ruins. se alguem te machucou, deixe-o saber. nessa hora, sabedoria e' mais do que necessario: deve-se expressar o ponto negativo de forma racional, e ate' amorosa. isso e' dar a outra face. nao facil, porque na maioria das vezes a emocao e o amor proprio ferido toma conta e queremos matar a pessoa que nos magoou a sangue frio.

pessoas que vao nos machucar, nos a encontramos todos os dias. pelas razoes mais diversas e estapafurdias. ha' pessoas que nos machucam de graca, por inveja e maldade. ate' quem mais nos ama nos machuca. faz parte da vida, da condicao humana. nao adianta ficar se lamentando, dizendo que o mundo e' mau e as pessoas sao horriveis. nos tambem somos maus e horriveis, mas nosso umbigo nao nos deixa dar conta disso. ou aprendemos a lidar com essas coisas, ou transformamos nossa vida num muro de lamentacoes que jamais ira' dar em coisa nenhuma a nao ser em mais sofrimento e numa pessoa amarga e rabugenta que afugenta todo mundo porque so consegue ver o que ha' de pior.

mas, voltando 'a questao do dar a outra face, eu nunca fiz nem uma coisa, nem outra. o senso de polidez e o orgulho [ascendente em Leao nao desce do salto; alem do mais, tem essa racionalidade jovial de Gemeos, sempre buscando resposta pra' tudo, mais casa 3 em Libra... enfim, eu devia trabalhar nas Nacoes Unidas] sempre ocultou minhas emocoes mais primitivas por tras de uma mascara fria de "esta' tudo bem, esse tipo de coisa nao me atinge". nunca explodi em publico nem quebrei nenhuma cadeira na cabeca de ninguem. ia pra' casa ouvir The Smiths e chorar no quarto. mas por dentro, a Lua em Escorpiao queimava em labaredas de angustia e raiva. foi assim desde que eu era crianca. ser vista como a menina educada e boazinha sempre pesou mais do qualquer coisa. e' preciso manter o controle da situacao, ou ela te devora. nesta filosofia de vida, muita gente me fez de gato e sapato e tive muitos dos meus interesses e vontades sufocados. cresci com minha auto estima baixa e ja' tinha depressao aos 12 anos de idade. entrei numa busca desesperada pelo amor das pessoas. queria que todo mundo gostasse de mim e me achasse o maximo. nao aceitava as minhas falhas - ninguem me explicou que falhar e' normal e aceitavel - e queria morrer todas as vezes que alguem me olhava torto ou que eu tivesse uma atuacao ruim numa peca.

'as vesperas dos meus 35 anos a coisa explodiu. ainda nao sei se vou viver sem carregar os tranquilizantes onde quer que eu va'. nao posso mais beber cerveja [um dos meus prazeres] como antes, e tenho que segurar a onda do cafe', pra nao estimular demais o sistema nervoso. voltei aos antidepressivos [tive sucesso com os naturais, 'a base de erva-de-sao-joao, o que e' menos mal]. tenho rezado mais, meditado mais. meu senso de religiosidade e' forte e isso foi o que sempre me segurou. e tenho aprendido uma valiosa licao: e' preciso, sempre que necessario, apertar o botao do foda-se. 'as vezes, pode ser questao de sobrevivencia. isso nao quer dizer que devemos nos colocar no centro de tudo e ignorar solenemente o resto, mas que devemos nos amar mais e nos dar mais atencao e nao se importar demais com certas coisas que acontecem. muitas coisas nao dependem da gente, e e' melhor deixar que o tempo cuide daquilo que nao podemos manejar.

sempre hesitei em trazer questoes muito intimas para o blog, mas me senti inclinada a fazer isso agora. em parte porque estou meio sozinha aqui na America e 'as vezes preciso desabafar. e em parte, porque me senti na obrigacao de explicar melhor aos meus queridos o que vem acontecendo. obrigado a voces, por me escutarem.

e, por favor, amem-se. porque so' assim estarao em condicoes de amarem ao outro como ele merece.


 


Patricia
, 34 anos.
gêmeos, leão ascendendo, lua escorpião.

nefelibata, raramente sai à noite, rói as unhas, usa óculos e muita roupa preta. lê tarot, mapa astral, e costumava perambular por palcos de teatro - hoje só desenha, escreve coisas e tenta cantar. não fuma, não usa drogas, é espiritualista convicta e gosta muito de gatos. não a convide para ir à praia nem à reuniões sociais, mas um chopp gelado com pizza e um bom papo são sempre bem-vindos.

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