sexta-feira, agosto 26, 2005 | 12:22 PM

o feminino em farrapos

este nao pretende ser um post polemico, nem discutir o assunto, que e' deveras delicado. e' um post sobre a falsa liberdade feminina, sobre inversao de valores, sobre a cultura do individualismo, marca registrada desses nossos tempos.

eu nao sou a favor do aborto. tenho uma opiniao bem formada sobre isso, baseada nao apenas no meu singelo entendimento de como as coisas funcionam nesse mundo, mas tambem, no que sinto dentro do meu coracao. no entanto, nao condeno quem ja' praticou, pois ninguem pode estar na pele de ninguem para saber da dor de nao poder colocar um filho no mundo por alguma razao seria. assim como nao condeno o suicidio, nem a eutanasia, nem a pena de morte, apesar de tambem ser contra. eu sou pro-choice. eu escolho a vida [e tambem o anticoncepcional].

passeando ontem por foruns do Orkut e por discussoes pos-adolescentes em blogs, deparei com coisas que me deixaram de cabelo em pe'. a forma como as garotas se referiam a um bebe no utero era como falar de um corpo estranho, de um cancro, de uma coisa altamente perigosa e nojenta, quase um alien, surgida ali "do nada" e precisando ser extirpada. uma coisa digna de filmes de terror B, que vai sugar voce, te deixar exaurida, destruir o seu corpo e a sua vida para sempre. uma delas declarava: "mulher nao e' incubadora". well, acho que temos alguma falta de informacao aqui. queiram ou nao, queridas, seus uteros nao servem para outra coisa a nao ser abrigar bebes. incubadoras, sim, naturais, perfeitas. e um bebe nao surge la' dentro por obra e graca do espirito santo. para que isso aconteca, sua participacao e' importante. ou nao?

[mais uma vez, atento para a delicadeza da questao. eu sei que voce pensou "queria ver se ela fosse estuprada e engravidasse". e, mais uma vez, nao 'e isso que quero abordar aqui. nem as meninas que morrem por abortos mal feitos, que poderiam ter sido realizados numa clinica limpinha. nem as criancas que vao nascer e nao vao ter o que comer. nem o procedimento eugenico (nazista?) de se eliminar criancas que nao serao perfeitas e vao sofrer e fazer os pais sofrerem o resto da vida. nao e' sobre isso que estou falando.]

o pior de tudo e' o discursinho, velho, esfarrapado, pre-fabricado: "o corpo e' meu, e eu tenho o direito de fazer o que quiser com ele". claro que e'. agora, com o corpo alheio, a questao e' outra. porque um bebe ate' vive atraves de voce, mas nao e' o seu corpo. exige responsabilidade, como a que precisamos ter com todas as coisas vivas.

[engracado, todo mundo quer ter livre arbitrio, mas ninguem quer ser responsavel por nada. responsabilidade e' a primeira exigencia do livre arbitrio. se voce nao esta' preparado para ser responsavel, desculpe, querido, mas voce nao esta preparado para a liberdade. esse, infelizmente, e' outro conceito enganoso bastante difundido nos nossos tempos.]

a revolucao sexual foi boa sim, tanto para as mulheres como para os homens, so' que, em pleno seculo 21, as pessoas ainda nao sabem muito bem o que fazer com o que conquistaram. confundem as coisas. a chave para tudo nesse mundo e' o equilibrio,coisa dificil de ser adquirida e compreendida. mulheres e homens tem suas funcoes no mundo, funcoes essas definidas pela propria natureza. e nao adianta, que nao vao ser
iguais nunca. e' algo alheio 'a nossa vontade, algo sobre a qual nao temos controle. e por diferenca, nao considerem supremacia de um sobre outro, porque as coisas nao sao bem assim. mulher e homem sao complementares, sao parceiros na vida. devem se ajudar conforme suas proprias atribuicoes, e nao competir uns com os outros. o corpo da mulher foi feito para alimentar, para gerar, funcao essa sacratissima, como sabiamente consideravam os antigos. mas hoje, nessa nossa cultura metida a besta,onde as pessoas se afastam mais e mais do Todo universal para cultivar seus egos, as funcoes femininas passaram a ser desconsideradas e desvalorizadas. somos livres, elas dizem. livres de que, se cada vez mais estao amarradas ao conceito erroneo de igualdade, ao apelo de uma cultura que exige que elas sejam "liberadas e independentes", donas do proprio corpo? no fundo, a mulher ainda tem inveja do falo, inveja essa que vai se metamorfoseando de acordo com o espirito das epocas. livres de que? de si mesmas, talvez.

outro argumento: o de que a crianca vai vir ao mundo sem ser amada e vai sofrer as consequencias. mais uma vez, fico paralisada diante de tanta dureza de coracao, de tanta... robotizacao? isso 'e fruto de que, da cyber cultura? deixa eu ver se eu entendi: estamos nos fundindo com nossos computadores e perdendo a capacidade de amar? como assim, o que nos impede de amar nossos filhos, alem do nosso proprio egoismo? e' estarrecedor: a maioria daquelas meninas nao tem mais de 25 anos!! por que tanta frieza? que ideia de amor passaram pra essas meninas? ou sera' que eu estou no mundo errado? por favor, se alguem souber me explicar, sou toda ouvidos.

eu tenho 35 anos e nunca engravidei. pouquissimas vezes tive condicoes financeiras de bancar um filho, por isso sempre tomei todo o cuidado. nao 'e dificil, e' so' ter um minimo de responsabilidade. tambem nao e' caro. e, quando estive em situacoes inesperadas e sem protecao [pouquissimas vezes], eu simplesmente nao ia ate' o fim. nao sou bicho que nao consegue controlar os proprios instintos, percebe? ha' muitas maneiras de se curtir um relacionamento sexual sem ser propriamente atraves de penetracao. eu quero ter um filho, quero loucamente, por varias razoes. gosto de crianca e sou uma pessoa hiper afetiva. acho que vou curtir a maternidade como poucas coisas. estou me lixando se engordar, se os seios ficarem flacidos, se a barriga tiver estrias. um dia a coisa vai ficar feia de qualquer maneira, e olha que nem esta' longe... um dos meus maiores pesadelos e' nao poder ser mae. penso nisso todos os dias. e penso na ironia do mundo quando garotas se sentem orgulhosas em se livrarem de seus bebes, enquanto pessoas pagam fortunas em tratamentos para terem exatamente o contrario.

se isso e' ser retrograda, entao eu sou sim. and proud. e viva a maternidade, viva a mentruacao [e olha que eu passo mal pacas todo mes!], viva a abencoada condicao feminina de porta para que os espiritos voltem 'a terra para mais uma etapa de aprendizado. viva a minha mae, que nao achou que eu fosse minar o seu corpo e me recebeu com tanto amor. viva as Deusas que habitam em nos, viva o nosso poder lunar, de receptaculo do espirito, de coadjuvantes da criacao. que assim e', foi e sera'. porque somos pequenos demais para decidir o curso da natureza, e por que continuamos em nosso risivel orgulho de nos acharmos superiores a ela, e' que continuamos fazendo mal ao nosso mundo e a nos mesmos.


 


Patricia
, 34 anos.
gêmeos, leão ascendendo, lua escorpião.

nefelibata, raramente sai à noite, rói as unhas, usa óculos e muita roupa preta. lê tarot, mapa astral, e costumava perambular por palcos de teatro - hoje só desenha, escreve coisas e tenta cantar. não fuma, não usa drogas, é espiritualista convicta e gosta muito de gatos. não a convide para ir à praia nem à reuniões sociais, mas um chopp gelado com pizza e um bom papo são sempre bem-vindos.

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